
As primeiras luzes da manhã revelam as terras e o verde que moldam a paisagem de Pilõezinhos, município localizado a pouco mais de 100 quilômetros da capital, João Pessoa, na Paraíba. Na região, o dia começa cedo com um comércio diverso e, entre as produções, se destaca o cultivo da cana-de-açúcar, um setor que moldou o passado do Nordeste e que, agora, desenha novas rotas de futuro através do empreendedorismo rural e da sustentabilidade.

Historicamente reconhecida pela tradição açucareira, a Paraíba se consolida atualmente como uma potência no mercado de bebidas artesanais. De acordo com os dados mais recentes do Anuário da Cachaça 2025 (Ministério da Agricultura e Pecuária), o Nordeste registrou o maior crescimento absoluto no número de estabelecimentos elaboradores da bebida, saltando de 169 para 189 registros, um avanço expressivo de 11,8%. Nesse cenário, a Paraíba desponta como a maior produtora da região Nordeste e ocupa a 6ª posição no ranking nacional de cachaças registradas.
Nesse crescimento, se encontra a Cachaça Senhora de Engenho, uma empresa familiar que ilustra como a paixão pelo campo, quando aliada à inovação técnica e ao fomento econômico, é capaz de fixar o homem na terra e projetar o nome do interior paraibano para o país.

DA POUPANÇA AO ALAMBIQUE
A história da Senhora de Engenho nasceu quase por acaso, fruto da pecuária. O proprietário, Adailson Souza, plantou a cana-de-açúcar, inicialmente, com objetivo de garantir uma reserva nutricional para o seu rebanho bovino. Como o insumo não precisou ser utilizado no gado, a matéria-prima foi vendida para os engenhos vizinhos. Foi o estalo que precisava para despertar uma antiga vocação local.
“Aqui era um engenho antigo que fabricava rapadura e cachaça, tínhamos uma instalação antiga. A partir disso veio a ideia e concretizamos”, relembra Adailson. O nome escolhido para batizar o destilado carrega afeto, “Senhora de Engenho” é uma homenagem à sua sogra, Dona Yone, que apoiou o projeto desde os primeiros passos.

O processo de fabricação exige paciência e respeito ao clima, onde a safra, na região, se concentra entre os meses de agosto e setembro. “Fazer cachaça chovendo não dá certo, é muito mais difícil”, explica o produtor. “Você não tem como transportar e o próprio açúcar da cana diminui no período de chuva. Tem que estar no sol mesmo para explorar o máximo possível de açúcar.”
Após o corte e o transporte da planta, a cana passa pela moenda, segue para o decantador e depois chega à sala de fermentação, onde ocorre a padronização e a atuação das leveduras para transformar o açúcar em álcool. O passo seguinte é a destilação no alambique. “Quando chega à temperatura média de 92 graus, começa a sair a cachaça”, detalha Adailson.
Embora o mercado moderno exija alta tecnologia, a Senhora de Engenho mantém a sua assinatura artesanal. “Nós temos hoje mais ferramentas para trabalhar, equipamentos, mas, no fundo, tem que ter a mão do homem. Eu costumo dizer que a cachaça é uma cozinha: tem que ter um tempero ali, uma dosagem especial. Cada um tem a sua”, pontua.
Esse “tempero” especial já rende frutos e reconhecimento regional. Investindo constantemente em capacitação, incluindo cursos de sommelier, técnicas de produção e boas práticas, a marca conquistou uma premiação de destaque em Areia (PB) com o seu Blend Carvalho Umburana. “Foi um orgulho para a gente ver essa cachaça chegar lá tão jovem, concorrendo com os mais antigos, e conseguir esse prêmio. Isso é motivador”, celebra Adailson.

SUCESSÃO FAMILIAR E NOVA ROTA NO TURISMO RURAL
O futuro da Senhora de Engenho caminha alinhado com a preservação da identidade regional e a sucessão familiar. Raul Neto, filho de Adailson, trabalha lado a lado com o pai, atuando desde o manejo no campo até o monitoramento do processo de envelhecimento nos barris.
“É uma satisfação ver a cachaça crescendo, ocupando o lugar na prateleira que ela merece. Ela traz uma identidade regional e a gente busca justamente trazer essa referência de um produto de qualidade para Pilõezinhos, buscando sempre as melhores prateleiras, focando na qualidade e não na quantidade”, afirma Raul.
A empresa agora se expande em direção ao turismo rural. O engenho foi recentemente contemplado com recursos do ICMS Cultural do Governo do Estado da Paraíba. O projeto prevê uma ampla revitalização da estrutura física para acolher visitantes. “Vai trazer uma revitalização no Engenho para melhor atender os turistas que vêm de fora e aí a gente dá mais visibilidade à cachaça e, consequentemente, ao Brejo paraibano nesse segmento”, projeta Raul Neto.

O IMPACTO ECONÔMICO COM A PRODUÇÃO
Para compreender como a atividade de um único engenho reverbera em toda a região, é preciso analisar a força macroeconômica desse setor. Segundo o Anuário da Cachaça, a fabricação de bebidas no Brasil sustentou um estoque mensal de 141.596 empregos diretos, registrando uma variação positiva de 5,14% em relação ao ano anterior.
Em cidades de pequeno porte como Pilõezinhos, a agroindústria atua como um motor de desenvolvimento e um escudo contra o êxodo rural. O economista Cássio Bessaria explica que a cadeia produtiva da cachaça de alambique demanda mão de obra específica para cada uma de suas fases, do plantio à distribuição, gerando um ciclo virtuoso de emprego e renda.
“Os pequenos municípios são caracterizados por possuírem microempresas, então, ter um setor importante para o Estado acaba gerando empregos, renda e consumo para aquelas famílias, garantindo a fixação de pessoas em uma região que precisa de mão de obra para se desenvolver”, analisa Bessaria. “Quando não há oportunidade, as pessoas tendem a migrar. Surgindo a oportunidade no próprio local de nascimento, aumentam as chances de fixação.”
Na Senhora de Engenho, a safra mobiliza diretamente de seis a oito funcionários contratados para o corte da cana, alimentação da moenda, fermentação e destilação. Na entressafra, a equipe é reduzida, mas os impactos indiretos permanecem vivos. “Os indiretos são muitos, porque envolvem transporte, conserto e demais áreas”, lembra Adailson.
O economista Cássio Bessaria destaca ainda o papel do polo regional, representado por Guarabira, que funciona como o centro de distribuição logístico e comercial dessa produção. “Guarabira acaba se beneficiando não só pelos efeitos diretos, mas também indiretos, como arrecadação de impostos e a atração de novos serviços que complementam a atividade principal”, afirma.

Bessaria ressalta que o acesso a linhas de crédito regional e financiamentos de longo prazo, com taxas de juros competitivas, é o grande divisor de águas para que micro e pequenas empresas expandam sua atuação. “O crédito com prazo longo acaba beneficiando o desenvolvimento de empreendimentos como esses. Além da vantagem competitiva, há os impactos positivos na expansão para novos mercados, exportação e consolidação de uma marca.”
O SABER FAZER CACHAÇA
A hegemonia do Brejo paraibano na produção de cachaça não é uma coincidência, é o resultado de um processo socioeconômico que remonta ao período colonial. Conforme explica o professor e historiador Percinaldo Toscano, a proliferação dos engenhos na região está intimamente ligada às capitanias hereditárias e à busca da Coroa Portuguesa por um produto que gerasse riqueza imediata para a Europa: o açúcar, o “ouro branco” da época.
“O açúcar se adaptou à questão do solo e do clima. Nós tínhamos um solo propício, quente e úmido, o clima tropical, uma monocultura e, infelizmente no primeiro momento, a mão de obra escrava. Esses elementos proporcionam o plantio da cana-de-açúcar”, contextualiza o historiador.

Inicialmente, a cachaça era tratada como um subproduto marginal da atividade açucareira. “Era uma coisa para os negros beberem, enquanto outra parte da cana era destinada à produção do açúcar e outros derivados”, explica Toscano. Contudo, com a crise no ciclo internacional do açúcar, o destilado foi ressignificado. “A cachaça deixa de ser um produto vulgar, simples, e passa a ser um produto de economia. As elites do Brasil Colônia já passam a consumi-la, os anos vão apurando isso e ela se torna um produto nobre. Os engenhos proliferam porque também, até hoje, vieram de herança familiar, passando de geração em geração.”
Nas últimas cinco décadas, esse “saber fazer” tradicional sofreu uma revolução técnica e cultural, alcançando mesas sofisticadas e grandes centros comerciais no Brasil e no exterior. “A cachaça ganhou um patamar de requinte. Ela se torna um elemento cultural do Nordeste, da vida do homem”, afirma Percinaldo Toscano, estabelecendo conexões entre a agroindústria e a identidade literária. “Nas obras de Graciliano Ramos e de José Lins do Rego, a temática central é o engenho. Retoma-se essa história, faz-se uma reconfiguração da importância desse ciclo econômico e a cachaça passa a ser nobre. O turismo tem abraçado muito isso, unindo a valorização histórica e cultural ao valor que a boa cachaça carrega.”

A trajetória da Cachaça Senhora de Engenho, em Pilõezinhos, é o retrato de um Nordeste que preserva suas raízes sem fechar os olhos para a modernidade. Ao transformar uma lavoura de subsistência animal em uma agroindústria premiada, a família de Adailson Souza gera empregos e também salvaguarda um patrimônio cultural imaterial.
Impulsionado pelo reconhecimento de editais de incentivo cultural e pela promessa de novas linhas de expansão econômica, o “ouro do Brejo” flui do alambique de cobre para as prateleiras da região, provando que o desenvolvimento regional se faz com sustentabilidade, valorização do homem e orgulho da própria terra. “Eu faço o que gosto”, finaliza Adailson. “E, por isso, a gente vai tocar por muitos anos. Inclusive, meu filho já está na área e vai ficar com isso aí um dia.”
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