Opinião: VITÓRIA DO CLÃ BOLSONARO OU TIRO NO PÉ DE UMA CANDIDATURA MUITO ENGRAÇADA?

Por: João Paulo F. da Silva

Atuando nos bastidores, o clã Bolsonaro vem buscando formas de ganhar evidência política. Para isso, os filhos do capitão, como são chamados por seus fãs, têm defendido publicamente pressões comerciais e taxações dos Estados Unidos contra o Brasil. Segundo seus interlocutores, as medidas seriam um freio externo contra os julgamentos no Supremo Tribunal Federal relativos aos atos criminosos de 8 de janeiro.

A decisão do clã de tomar essa direção deixa claro que sua opção não é pelo povo brasileiro, mas por seus próprios interesses políticos. Esse comportamento coloca em xeque a famigerada ideia de que o partido dos Bolsonaro “é o Brasil” ou de que defende o mote “Deus, pátria e família” — slogan do integralismo brasileiro de 1930, um movimento fascista inspirado em Benito Mussolini, na Itália, e na ditadura de extrema-direita de Adolf Hitler, na Alemanha.

O atual senador da República e pré-candidato, Flávio Bolsonaro, mantém uma candidatura muito engraçada: embora seja considerada patriota, demonstra relações de subserviência com Donald Trump, em uma busca por cumprir a promessa de seu pai de entregar terras brasileiras para a exploração norte-americana. Ademais, o seu perfil de subjugação (anulação pessoal) ou complexo de inferioridade pode levá-lo — e, em uma democracia séria, levaria — à derrota nas eleições vindouras.

Não se pode afirmar isso com veemência, até porque os assessores de Trump negam a informação, mas as taxas impostas parecem ser mais um “presente de grego” dado à nação brasileira pelo clã Bolsonaro. Uma coisa é fato: o pré-candidato viajou aos Estados Unidos e participou diretamente de uma audiência do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Não se sabe, ao certo, qual era a sua agenda; mas, se ele não foi buscar parcerias ou mercados para o Brasil, o que teria buscado? As tarifas?

A realidade brasileira atual é a escalada protecionista da Casa Branca, que se consolida e se apresenta como um divisor de águas geopolítico. O governo de Donald Trump impôs, além da barreira de 25% na Seção 301, uma sobretaxa global adicional de 12,5%, alegando falhas na fiscalização contra o trabalho forçado. Diante disso, o Brasil enfrenta o desafio de se equilibrar entre a firmeza institucional e o pragmatismo de mercado. Abaixo, analisam-se as saídas políticas de Brasília e o parâmetro de forças entre a agressividade de Trump e a resposta brasileira.

 AS TRÊS SAÍDAS POLÍTICAS DO BRASIL PARA EVITAR UMA CRISE PROLONGADA E BLINDAR A ECONOMIA

A Via Diplomática e a Negociação Assimétrica: O foco inicial do Executivo é buscar um acordo customizado, nos moldes do que o Reino Unido obteve, abrindo concessões em temas digitais e energéticos. A barreira: Donald Trump utiliza as tarifas como moeda de troca geopolítica para forçar o Brasil a rever barreiras ao etanol americano e a ceder nas disputas contra redes sociais dos EUA.

Reorientação Global e Diversificação Mercadológica: Usar o mapeamento de R$ 130 milhões da ApexBrasil para desviar o fluxo de exportações afetadas para mercados alternativos. Alvos prioritários: Canadá, Bélgica e Emirados Árabes Unidos foram identificados como capazes de absorver produtos industriais, enquanto o próprio bloco do Mercosul receberia os veículos sobretaxados.

Compensação Interna e Protecionismo Reverso: Expandir os programas emergenciais, como as linhas de financiamento de R$ 18,5 bilhões do Plano Brasil Soberano 3. A barreira: O setor industrial demanda o fortalecimento do Reintegra e o diferimento de impostos para suportar o “Custo Brasil”, além de barreiras nacionais contra a invasão de produtos importados que disputam o mercado doméstico.

 ASSIMETRIA ADUANEIRA: O CHOQUE DE FORÇAS ENTRE O “TARIFÍMETRO” DE TRUMP E A RECIPROCIDADE BRASILEIRA

O embate aduaneiro entre Washington e Brasília expõe uma profunda assimetria de ferramentas jurídicas e forças institucionais entre as duas nações. De um lado, a engrenagem protecionista de Donald Trump opera de forma unilateral e imediata. Amparado na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, o presidente dos Estados Unidos possui a prerrogativa de decretar tarifas pesadas sem a necessidade de aval do Congresso americano. O gatilho de sua política externa é marcadamente agressivo e ideológico, misturando interesses econômicos com disputas sobre soberania digital, governança da Amazônia e segurança geopolítica. O resultado prático é a imposição de sobretaxas cumulativas e severas — que variam de 10% a 25%, somadas aos novos 12,5% das barreiras setoriais —, asfixiando cadeias produtivas globais inteiras.

Na outra ponta da disputa, a resposta do Brasil por meio da Lei da Reciprocidade Econômica (Lei nº 15.122/2025) segue um rito técnico, colegiado e estritamente defensivo. Sua ativação não ocorre por impulso político; depende obrigatoriamente de estudos de impacto conduzidos pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) e visa unicamente neutralizar prejuízos causados de forma direta por barreiras externas. Embora a legislação brasileira confira poderes robustos ao Executivo para responder à altura — permitindo desde a elevação de impostos sobre bens importados dos EUA até o congelamento temporário de patentes e investimentos norte-americanos —, a doutrina econômica do país atua com extrema cautela. O lema de bastidores em Brasília é evitar o isolamento cego, sob a premissa de que revidar sem critérios rigorosos pode paralisar as próprias indústrias nacionais.

Esse cuidado técnico reflete diretamente o sentimento da opinião pública. Levantamentos recentes conduzidos pelo Instituto Democracia em Xeque (DX) alertam que o eleitorado brasileiro começou a sentir os efeitos do tarifaço no bolso, gerando um clamor por saídas diplomáticas firmes e pelo uso da Lei da Reciprocidade apenas como último recurso. O grande dilema político do Palácio do Planalto reside no risco iminente do “olho por olho”. O acionamento intempestivo das armas comerciais brasileiras pode desencadear uma espiral de retaliações descontroladas por parte da Casa Branca. Caso o Brasil decida sobretaxar produtos tecnológicos ou insumos essenciais vindos dos EUA, as fábricas brasileiras correm o risco de perder de vez o acesso a componentes vitais e comprometer as cotas de mercadorias que ainda entram com isenção no mercado norte-americano.

 O LABIRINTO ADENSADO DA GUERRA COMERCIAL

A consolidação do tarifaço norte-americano contra o Brasil redesenha não apenas o xadrez diplomático, mas impõe um teste de estresse inédito às estruturas econômicas e institucionais do país. Diante de uma taxação que atinge 18% das vendas para os Estados Unidos e ameaça um montante de US$ 7,4 bilhões, a possibilidade de o Brasil acionar a Lei da Reciprocidade Econômica abre um debate complexo sobre as formas de contra-ataque.

Para entender a viabilidade de uma reação, o primeiro mapa disponível reside no histórico do país na Organização Mundial do Comércio (OMC). O maior precedente nacional é o Contencioso do Algodão, quando o Brasil venceu os EUA após anos de disputa contra subsídios ilegais da Casa Branca. Se decidisse converter as atuais ameaças em prática, a arma mais poderosa de Brasília não seria taxar bens físicos — o que encareceria a produção interna —, mas sim aplicar a retaliação cruzada no campo da propriedade intelectual. Isso envolveria a quebra temporária de patentes de medicamentos, produtos químicos e biotecnologia de corporações americanas, além da suspensão de direitos autorais de softwares e produtos culturais.

No campo das mercadorias, o alvo seriam setores onde os EUA registram forte superávit e cujos itens possuem substitutos globais fáceis, como plásticos de engenharia, insumos agrícolas e bens de tecnologia médica, estendendo-se para tarifas extras sobre serviços digitais e de streaming. A iminência desse confronto, contudo, já atua como um vetor de forte instabilidade macroeconômica no mercado financeiro doméstico. O dólar comercial reflete diretamente esse ambiente de aversão ao risco, consolidando-se na casa dos R$ 5,08 sob o temor de desidratação do fluxo de divisas para o território nacional, visto que investidores precificam uma menor entrada de moeda estrangeira no país devido à retração nas vendas externas.

Estudos econômicos alertam para um efeito em espiral perigoso: enquanto cenários de trégua ou recuo político por parte de Donald Trump tendem a manter a volatilidade cambial controlada em cerca de 1,5%, uma retaliação agressiva por parte de Brasília pode disparar uma alta cambial repentina de até 12%. Essa desvalorização do Real alimenta diretamente o repasse cambial (pass-through) para a inflação de produtos importados. Os efeitos desse encarecimento costumam ficar nítidos a partir do segundo mês após o choque, atingindo o ápice no terceiro, com o potencial de adicionar até 0,73 ponto percentual à inflação acumulada em doze meses. Como consequência direta, componentes eletrônicos, chips, trigo e máquinas industriais estrangeiras ficam mais caros, elevando o preço final de alimentos processados e eletrodomésticos no varejo.

Cientes dessa fragilidade, as duas maiores entidades de representação industrial do país, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), adotam posições de extrema cautela, priorizando o pragmatismo econômico e rechaçando movimentos que misturem palanques eleitorais com comércio de Estado.A CNI tem atuado de forma silenciosa nos bastidores diplomáticos e chegou a protocolar uma segunda carta diretamente na Embaixada Americana em Brasília, tentando paralisar as sanções ao demonstrar que o prejuízo será mútuo para as cadeias de suprimentos integradas. Os cálculos da confederação estimam que o impacto total das tarifas americanas possa colocar em risco um fluxo de até US$ 11 bilhões em exportações brasileiras. Em vez de incitar o uso imediato da Lei da Reciprocidade, a CNI cobra urgentemente do Palácio do Planalto medidas compensatórias internas, como a reativação do Reintegra — programa que devolve resíduos tributários aos exportadores — e a facilitação de crédito por meio do Plano Brasil Soberano 3.A FIESP, por sua vez, adota um tom mais incisivo de cobrança interna e criticou publicamente a condução diplomática do governo federal, apontando que o tarifaço americano poderia ter sido evitado caso Brasília não tivesse alimentado ruídos diplomáticos e críticas personalistas contra Washington. A federação paulista lembra que o mercado norte-americano é o principal e mais vital comprador dos produtos manufaturados brasileiros de alto valor tecnológico, tornando o fechamento dessa porta uma ameaça existencial para diversos polos fabris nacionais.

Alinhada a análises de especialistas em comércio internacional, a FIESP adverte que acionar a Lei da Reciprocidade neste momento pode parecer uma atitude atraente e patriótica às vésperas das eleições, mas se mostra comercialmente ineficaz. A entidade reforça um dado de realidade global: com exceção da China, nenhum outro país tarifado pelo governo Trump preferiu revidar diretamente, ciente de que o confronto aduaneiro com a maior economia do mundo gera uma espiral destrutiva na qual ambos os lados saem prejudicados.

Por: João Paulo F. da Silva

Mestrando em História pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Membro do Grupos de Pesquisa Cotidiano, Cidadania e Educação (GPCCE), Grupo de Estudos e Pesquisas em História Pública (GEPHP), Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Álvaro Vieira Pinto (GEPAVP) e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI/UEPB/CAMPUS III). Especialista em Ensino de História do Brasil e do Mundo Contemporâneo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Gestão Pública na Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Pós-graduando em Direitos Humanos e Direito das Pessoas Socialmente Vulneráveis pela Faculdade I9 Educação.

 

REFERENCIAS:

ALCKMIN rejeita retaliação aos EUA por tarifaço de 25% contra produtos brasileiros. Carta Capital, 21 jul. 2026. Disponível em: cartacapital.com.br. Acesso em: 23 jul. 2026.

BOLZANI, Isabela. O ‘plano Trump’: como empresas brasileiras tentam driblar o tarifaço e reduzir a dependência dos EUA. G1, São Paulo, 23 jul. 2026. Disponível em: globo.com. Acesso em: 23 jul. 2026.

CRE vai avaliar medidas contra tarifaço dos EUA, afirma Trad. Agência Senado, Brasília, 23 jul. 2026. Disponível em: senado.leg.br. Acesso em: 23 jul. 2026.

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EUA impõem nova tarifa de 25% a produtos do Brasil por práticas desleais. DW (Deutsche Welle), Washington/Bonn, 16 jul. 2026. Disponível em: dw.com. Acesso em: 23 jul. 2026.

GOVERNO Trump anuncia novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. Sindifisco/SC, Florianópolis, 16 jul. 2026. Disponível em: sindifisco.org.br. Acesso em: 23 jul. 2026.

BATISTA, Milena. Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta. aRede, Ponta Grossa, 22 jul. 2026. Disponível em: arede.info. Acesso em: 23 jul. 2026.