Interior de Pernambuco: ‘mensalão? Sei o que é isso não’

setembro 30, 2012
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Edilson da Silva, 34 anos, lavrador Agência O Globo / Hans von Manteuffel

BARRA DE GUABIRABA (PE) – Mensalão? Deve ser ali, na sede da associação, afirma o lavrador José Edilson da Silva (34), apontando para o imóvel do Sítio Figueira, ponto de encontro dos companheiros de enxada para decidir o destino das hortaliças cultivadas em Vitória de Santo Antão. Não há intenção de fazer piada e, guiando-se talvez pela rima, Edilson acusa total desconhecimento do escândalo.

O caso de Edilson não é exceção no interior, onde a grande maioria das pessoas ouvidas por O GLOBO praticamente desconhece o esquema. A TV chegou, mas a ação penal 470 passa longe do cotidiano de homens e mulheres do campo. Foram 35 pessoas abordadas, em várias cidades, que disseram desconhecer por completo o assunto.

Entre as duas que demonstraram conhecimento vago, apenas um par de nomes é lembrado: José Dirceu e “um tal Valério”, Marcos Valério, o operador do esquema.

— Assisto todos os dias o Jornal Nacional, mas não sei o que é isso não. Crime que entendo é aquele que a gente sabe quem morreu, quem matou — afirma Verivaldo Antônio dos Santos (54), operador de escavadeira em Barra de Guabiraba, cidade a 141 quilômetros de Recife.

‘É difícil para uma pessoa que nem assina o nome’

Em Gravatá, no agreste, a trabalhadora rural Ana Maria da Conceição (54), “criada na luz de candeeiro” também não tem ideia do que seja o mensalão.

— Eu vejo falar na TV, mas não sei o que é. É um assunto difícil para uma pessoa como eu, que nem assina o nome. O que a senhora, que sabe ler, acha? — indaga.

Morando no sítio vizinho, Antônia Alice da Silva Félix (40) tem TV e computador em casa para a filha, mas não sabe do que se trata.

— Eduarda, vem aqui, explicar a essa moça. Não sei desse assunto — diz, convocando a filha de 19 anos, que concluiu o ensino médio. A jovem mostra um conhecimento um pouco maior do que a da mãe, mas não muito diferente de Verivaldo.

— Não sei exatamente o que aconteceu, mas desconfio que é alguma coisa como se tivessem roubado dinheiro do povo — afirma a garota.

Recife: 70% conhecem o caso

Ao ser indagada sobre nomes ou partidos envolvidos no julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), ela não soube citar nenhum.

Se no interior o mensalão é um assunto praticamente desconhecido, na capital pelo menos 70% das pessoas já ouviram falar ou sabem em que consistiu o esquema de compra de apoio político. É o que mostra um trabalho ainda em fase de conclusão coordenado por Adriano Oliveira, do Programa de Doutorado em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco.

O pesquisador disse, no entanto, que, em Recife, há indicações que o mensalão não influi na tendência de voto do eleitor. Por um motivo muito simples: corrupção e política andam sempre juntos no entendimento da população.

— Infelizmente o eleitor entende a corrupção como uma característica da classe política. Temos observado que as pessoas a recebem como uma coisa cotidiana, comum ao político. Temos observado situação ainda mais curiosa: quem acusa o corrupto, pelo menos no ambiente eleitoral, é tido como oportunista — explica o pesquisador, que tem diversos trabalhos publicados sobre comportamento do eleitor.

O professor lembrou que há municípios pernambucanos onde alguns candidatos fichas sujas driblaram a legislação, conseguiram ser candidatos e ainda lideram as pesquisas de intenção de voto.

— Embora o mensalão esteja na mídia, tenha chegado ao Supremo Tribunal Federal e exponha as mazelas do poder, no entendimento do eleitor, não é uma coisa nova. Para ele, corrupção sempre ocorreu na classe política brasileira —diz Adriano Oliveira.

 

 

 

 

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