O centenário da minha Vó Adriana

Não tem como lembrar do roçado sem vir à memória o riacho que o cortava, manso e cristalino

setembro 8, 2018
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minha Mãe, minha Avó e eu

O mistério da linha tênue entre a vida e a morte é inexplicável. Afinal, por que nascemos se um dia haveremos de morrer? A quem interessa a nossa morte? A felicidade, o sofrimento… sentimentos que a gente guarda de quem já partir e que vamos deixar para os que ficarem.

O poeta popular se inquietava e fez um arrazoado genial. Leandro Gomes de Barros disse:

Se eu conversasse com Deus

Iria lhe perguntar:

Por que é que sofremos tanto

Quando viemos pra cá?

Que dívida é essa

Que a gente tem que morrer pra pagar?

 

Perguntaria também

Como é que ele é feito

Que não dorme, que não come

E assim vive satisfeito.

Por que foi que ele não fez

A gente do mesmo jeito?

 

Por que existem uns felizes

E outros que sofrem tanto?

Nascemos do mesmo jeito,

Moramos no mesmo canto.

Quem foi temperar o choro

E acabou salgando o pranto?

O introdutório foi para lembrar o centenário de minha segunda mãe. Minha Avó Adriana Maria da Conceição estaria completando cem anos hoje, se estivesse ainda entre nós materialmente. Digo isso porque ele sempre viverá nas minhas melhores lembranças de infância.

Vó Adriana nasceu no dia 6 de setembro de 1918 e viveu 94 anos. Conheceu apenas meu filho mais velho, Vinícius (hoje com 10 anos), mas não chegou a ver Maria Luísa (3 anos) e Ivan Netto (3 meses). Botei os meninos na narrativa para dizer que a minha mãe, ainda criança, foi deixada na “Paraíba do Norte” aos cuidados de minha Avó, que na verdade é tia de sangue da minha mãe.

A minha Avó de sangue, Lindalva Alves de Lima (também falecida), teve uma gravidez ainda adolescente, não tinha como criar a filha recém-nascida e fez o caminho de todo retirante nordestino de sua época: migrou para o Sudeste. Do pouco que ganhava, destinava uma parte para ajudar na criação da filha, mandava as encomendas pelo Correios.

Eu, criança de bucho grande, menino sambudo, adorava escolher as roupas que vinhas pelos Correios. As caixas cheias de “cabidelas” faziam a festa da meninada, os meus irmãos, num total de cinco. Quando chegava roupa de São Paulo o caixote, onde mãe guardava as roupas, ficava apipado.

Voltando à Vó Adriana, eu fui o neto mais mimado por ela. Primeiro porque foi ela quem escolheu meu nome, ainda no ventre da minha mãe. Depois, eu fui quem mais estava perto dela, morei com ela um bom tempo e isso chegava a causar ciumeira da meninada. Me dava cafuné até dormir. O pedaço de carne maior era pra mim na hora do almoço. Me tratava com tanto carinho que eu não queria voltar pra casa. Coisa de Avó.

O coração de Adriana Maria era gigante. Minha Avó cedeu o quintal de sua casa para construir a nossa casa, nos fundos, de pau a pique. Construímos com madeira, cipó e barro o lar para abrigar a nossa família, pobre, mas limpinha e decente.

No tempo de colheita era bucho cheio. Os sacos cheios de feijão verde, milho, jerimum e outras delícias paridas do da terra ficavam aos montes na cozinha de casa. Ninguém chorava miséria em ano de safra boa. Numa dessas, com roçado de aceiro a aceiro com algodão, o apurado foi tão bom que construímos uma casa de alvenaria no bairro Pasto Novo e deixamos a casa de taipa do quintal de Vó Adriana.

Ela (Adriana) também botava roçado e fazia gosto entrar na barraca de roçado dela. O cuidado era tanto que não se via mato crescido na lavoura. O milho do roçado da minha Avó era mais doce. O arroz que ela preparava não tinha igual. Eu lambia os beiços com a comida que ela fazia.

Não tem como lembrar do roçado sem vir à memória o riacho que o cortava, manso e cristalino. Água doce que matava a nossa sede e banhava os meninos quando o Sol ia baixando. Eu ainda ouço a água correndo sobre as pedras no riacho que povoa minha memória de infância na roça.

Minha Avó era uma negra decente que criou os filhos com muita luta. Ficou viúva ainda relativamente jovem e morreu honrando o marido, Celestino. Sempre dizia que nunca aceitava outro homem no lugar do pai dos seus filhos.

Apenas a saudade, a lembrança, o carinho e o amor ficaram. A malvada da morte levou minha Avó sem pedir licença.

Nesse centenário de vida da minha eterna e querida avó, aqui de baixo celebro a vida dela que deve estar lá em cima. Onde quer que estejas, espero nos encontrar um dia e não esqueça o meu cafuné. Salve Vó Adriana!

Jota Alves é radialista com passagens pelas rádios Constelação FM e Rural AM de Guarabira, Tabajara de João Pessoa e jornais Folha do Brejo e Jornal da Paraíba. Atualmente é editor e articulista político do Portal 25 Horas.
E-mail: [email protected]
WhatsApp: (83) 99962-8866

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