O DNA da UDN

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Não precisa rebobinar tanto assim a história contemporânea do Brasil para entender a posição extremosa de muita gente, diante do impasse experimentado pela nação nos dias atuais.

Tudo, ao que parece, tem a ver com uma ancestralidade quase imemorial. Vai-se ver, traça-se a genealogia dos atores, começa-se a encontrar respostas quase cromossômicas.

No tronco dessa genealogia, estarão fundados os discursos, as visões do mundo, as filtragens ideológicas. Nas assertivas de cada um, estarão contidos, sem que muitas vezes se dêem conta, o anacronismo de alguns estribilhos não mais suportados na atualidade. Tais clichês são reafirmados na repetição de frases de efeito, vazias de vivência e de leitura. Reaparecem como se fossem  aforismos, porém ocos de sentido e de moral. Surgem no permeio, não raro, da fala de bisavós, avós, pais, tios, etc. Trazem, na sua construção um simplismo irritante. Denunciam, nada mais, que a falta de um mínimo de conhecimento político sobre o País e sobre as nossas próprias trajetórias. Falas que incluem em seu conteúdo expressões empoeiradas como “capitalismo selvagem” contrapondo-se a “ditadura do proletariado” e vice- versa.

Do discurso para a prática, em momentos como o de agora, vemos o aguçamento das orientações. Na catalização das manifestações de direita e esquerda, é revelada, muitas vezes, uma esgrima argumentativa desinformada e deselegante, perpassando o que não mais pode ser chamado debate político, mas uma verdadeira briga de foice, sobre a qual já me referi outras vezes, fazendo apenas uma analogia diversa.

A grande mídia não surpreende. Age, como sempre, dentro do papel  que, historicamente, parece lhe ter sido reservado, qual seja: o de  serviçal de todos os golpes, hoje e sempre. Ao “informar”, nada acrescenta de analítico ao fatual. Quando o faz, é de uma passionalidade inescondível.

Nunca exerceu, no caso das concessões públicas, a sua função precípua definida na Constituição, experimentando, em poucas oportunidades, a defesa dos interesses  realmente coletivos.

Ao contrário, concentra-se patrimonialmente sob o mando de poucos e atua hoje de braços dados com os moralmente degradados, ao passo que criminalizam outros, (uns até inocentes, até que se prove o contrário) com o objetivo de fazer com que todos pareçam iguais.

Conduzem de tal forma a sua estratégia ao maquiar  criminosos sob a sua proteção, que chegam a fazer  com que pareçam os melhores entre os piores e os únicos capazes de conduzir o destino de todos.

Não revisam, em nenhum momento, a história contemporânea, a não ser para pedir desculpas tardias por golpes anteriores. Não aceitam paradigmas, não refletem sobre nada que seria importante ou de interesse da sociedade, essencialmente da juventude, em momento tão decisivo da vida brasileira.

Fale-se de Arena e MDB e você já tira uma grande quantidade de jovens da conversa. Se o assunto for UDN e PSD, muitos,  de cabelos já brancos, voarão silenciosos. Pergunte à maioria dos nossos jovens quem foi Costa e Silva, Garrastazu Médici e Ernesto Geisel (essa nada santíssima trindade) e eles podem até lembrar dos nomes, estudados para alguma prova de história, mas não irão muito além disso, pois não lhes foi oferecido um aprofundamento reflexivo sobre o que são regras de direito quebradas, atos institucionais, pactos sociais rompidos, povo conflagrado, constituição rasgada, políticos cassados, perseguidos,  desaparecidos e até mortos.

Em outra direção,  embora passado tanto tempo, onde houver um judeu,  mesmo adolescente, haverá um ser humano lembrado e lembrando, a cada dia,  o que foi holocausto do seu povo. Se lhe perguntarem quem foi Otto Adolf Eichmann, ele saberá com riqueza de detalhes a biografia do homem responsável pela chamada “solução final”. Saberá dizer, ainda, peculiaridades sobre o julgamento do carrasco do seu povo e o que Eichmann representou para 6 milhões de judeus, confinados e depois mortos em campos de concentração. Se acharem que há exagero comparativo, é bom lembrar que o que torna um crime hediondo não está relacionado aos milhares ou milhões de vítimas, mas à sua natureza cruel, infame e despropositada.

No nosso caso, guardamos tudo  na memória randômica, ou seja, de curta duração. Reduzimos a magnitude histórica à nossa breve existência. Damos conhecimento aos nossos descendentes sobre as construções políticas, através de uma oralidade muitas vezes pobre e distorcida, paroquial, farta de circunstancialidades e pessoalísmos, sem o devido suporte discursivo, sem leitura, sem aprofundamento, sem atentar para o fato de que poderemos, um dia, precisar efetivamente desse tipo de conhecimento. Sem a advertência de que a paz é passageira, como diz o verso da canção popular.

Nos últimos quase 30 anos da chamada normalidade democrática, nos habituamos a frequentar a planura onde foi riscada uma linha medianeira das ideologias, o lugar  estabelecido como espaço para as interseções amigáveis, o território da construção do respeito às divergências, enfim, o solo fértil para a plantação de uma vida cidadã. Permanecemos  nesse local o tempo necessário para apreciar e até  nos viciar a essa verdadeira zona de conforto. A linha medianeira, na verdade, foi traçada sobre um lago gelado. Como patinadores inexperientes, não nos demos conta da fina espessura da camada de gelo.

Fatores relacionados ao clima econômico e às instabilidades mercadológicas, de dimensão global, associados ao aumento da temperatura do oportunismo, arrimado no apoio da fábrica local, criminosa e cíclica das crises,  ajudaram a diminuir a espessura dessa camada sobre a qual patinávamos alegremente. Tivemos que  abandonar às pressas a faixa medianeira, saindo da zona de conforto, do aprazível espaço da nossa construção histórica pacífica.

Em desabalada carreira, fomos para as beiradas do lago. Escolhemos as margens, direita ou esquerda, como não poderia deixar de ser, de acordo com a nossa genética política.

Passamos a assistir, atordoados, a extensa e abissal fissura que começou a se formar na área onde patinávamos. Sabe-se lá se o lago foi dividido realmente ao meio. Só uma eleição já, seria capaz de fazer essa agrimensura. Uma das evidências de que um lado continua bem maior do que o outro é a verdadeira ojeriza que têm sobre o tema, aqueles que tomaram o poder na mão grande.

A capitania hereditária que um dia foi a velha UDN, mimetizada e pulverizada em vários partidos da atualidade,  parece se reagrupar e, como nunca,   continua abrigo  de coronéis encalacrados,  dos seus filhos, netos e bisnetos. Querem a capitania de volta. Querem privilegiar o pirão  geneticamente udenista, já que a farinha tornou-se pouca.

É como se os herdeiros da UDN, em suas convulsões, mandassem um recado tísico, avisando que o consentimento oposicionista foi cancelado, que a brincadeira de democracia esta suspensa até ulterior deliberação. Qualquer manifestação contrária será criminalizada, em nome “da nova ordem”,  “da normalidade” “da segurança” “do futuro”  “das famílias” “dos cristãos” tudo orquestrado pela bancada  “dos bois, da bíblia e da bala”. Esses últimos, servem de tripé para a maioria dos que pululam nas duas casas legislativas e estendem a sua ação criminosa ao âmago dos demais poderes.

Um remake de um filme já visto, só que dessa vez encenado por atores de quinta categoria, comprometidos moralmente até os dentes, verdadeiros paus de galinheiro.  Pisam em chão tão escorregadio que mal se sustentam de pé. Caem de podres, levantam-se sem qualquer elegância e só não batem a poeira e dão a volta por cima, porque não há poeira, só lama. Não há mais equilíbrio para passo de caminhada ou dança, só para escorregões e novas quedas. A cada novo escândalo, fazem cara de paisagem e continuam trôpegos na desastrada empreitada, como se não fossem observados.

O grande problema dos que ainda carregam na massa do sangue político o DNA da UDN, até mesmo sem saber,  é que tiveram o seu mundinho invadido por negros,  gays,  lésbicas,  índios e outras minorias que juntas compõem o nosso todo, o nosso mais puro e belo tecido social, além de assistir irritados a ascensão social de pobres da periferia das cidades e que viviam sem perspectiva, à margem de uma vida digna. Tiveram que dividir os espaços das aeronaves e dos aeroportos com gente do povo. Assistiram sermos excluídos pela ONU do mapa da fome. Viram as universidades federais e escolas técnicas chegarem ao interior, mudando a vida das regiões pobres e deserdadas na nossa imensa nação. Viram nascer e crescer a maior obra hídrica do mundo, já 80% concluída.  Quiseram então ir para Minas. Minas não há mais José, e agora?

Alexandre Moca é jornalista e ensaísta