“SOLDADOS ARMADOS, AMADOS OU NÃO”

A voz de prisão dada por um policial a paisana a uma aluna, parece ser o marco zero de uma crise sem precedentes na história da instituição

novembro 3, 2017
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Por Alexandre Moca

Soldados armados, amados ou não (I)
Nem a polícia é o soldado que eventualmente comete um deslize, nem o professor ou o aluno é a Universidade a qual pertence. As instituições são infinitamente maiores do que os seus atores. Sobre isso podem e devem ser feitas algumas considerações. Alunos professores e policiais passam. O que não pode passar para o lado de dentro dessas instituições é a intransigência, o autoritarismo e a repressão, como já passou um dia. Nem faz tanto tempo assim e parece que há uma amnésia conveniente e perigosa pairando sobre a cabeça de alguns que espero sejam poucos…

Soldados armados, amados ou não (II)
…Com o verso do paraibano Gerado Vandré, extraído da bela canção “Para não dizer que não falei das flores”, que serve de epígrafe e sob a da poesia espessa no mesmo, espero que me acuda o bom senso, aquele que todos pensam possuir de sobra e sobre o qual Renê Descartes faz referência, logo no primeiro parágrafo do seu Discurso sobre o método…

Soldados armados, amados ou não (III)

…A música que transformou Vandré em uma celebridade, em pouco tempo foi abominada pela ditadura de então. Rendeu ao autor prisão e dizem que até tortura. É que os belos versos do paraibano transformaram-se em hino da esquerda brasileira e o hino teve proibida a sua execução, por ser considerado uma obra subversiva. Assim foi rotulada e carimbada pela censura de então, quando na realidade sempre era e é nada mais que uma marcha, impedida de ser tocada em tempos mais obscuros que os de agora. Imaginem!…

Soldados armados, amados ou não (IV)
…O que acontece hoje, ao tudo indica, é a ação de uma fatia burra da velha direita, aquela que sempre foi incitada e manipulada pela direita inteligente, decidida a levantar do leito de morte, como se tivesse sido ressuscitada por um choque elétrico, um daqueles que ela própria (a ditadura) dava em seus torturados ou, quem sabe, por uma desfibrilação irresponsável e inconsequente capaz de provocar estragos em todo o País…

Soldados armados, amados ou não (V)
…Os resultados disso chegaram como uma onda aqui em Guarabira. Um confronto um tanto quanto ridículo se não fosse também perigoso, onde a intolerância parece ser a moeda corrente.
Dois incidentes somados em menos de dez dias de um para o outro, envolvendo alunos, professores e até o diretor da UEPB – Campus de Guarabira de um lado e policiais do IV BPM do outro lado…

Soldados armados, amados ou não (VI)
…São fortes as evidências de que há uma espécie de apagão de autoridade, já que insistir na ideia de uma falta temporária de bom senso, considerando os acontecidos, seria quase um luxo.
A voz de prisão dada por um policial a paisana a uma aluna, parece ser o marco zero de uma crise sem precedentes na história da instituição de ensino. É muito cedo para colocar a Polícia Militar no outro pólo, mas jamais poderão ficar de fora alguns dos seus membros…

Soldados armados, amados ou não (VII)
…Há um grupo de policiais, acredito que não só aqui mas em outros lugares, visíveis por gestos, atitudes e declarações em redes sociais, que se assemelha a uma milícia ideológica, nostálgica e saudosa dos tempos duros que escureceram a cena nacional com o manto horrendo da violência e da impunidade.
Pior, em momentos como este, mesmo equivocados, alguns policiais parecem contaminar a o resto da tropa, rebocando um sentimento corporativo insano, capaz de comprometer a imagem de toda a instituição…

Soldados armados, amados ou não (VIII)
…São militares que metem os pés pelas mãos em nome de uma ordem que só existe em suas cabeças e, com isso, assumem o risco de macular a polícia, que tão bons serviços tem prestado à Paraíba, sendo reconhecida nacionalmente como uma das corporações mais eficientes e bem equipadas do Brasil.
Não há dúvida de que no primeiro incidente há um viés de bravata do militar à paisana que, usando de alguma truculência, tenta, solitariamente, dar voz de prisão a uma aluna. A seu juízo ela estaria cometendo um crime, provocando dano ao patrimônio público, em virtude da inscrição de uma frase que fazia em uma das paredes do campus…

Soldados armados, amados ou não (IX)
…A voz de prisão seria dissolvida como um incidente banal não fosse o fato de o militar convocar uma das guarnições da polícia e esta ter adentrado ao campus para supostamente efetuar a tal prisão, sem a devida ordem da direção ou, em último caso, o cumprimento de uma ordem judicial, que não era a hipótese.
Na mesma ocasião o autor da ordem de prisão foi informado de que o espaço onde a aluna fazia uma inscrição havia sido criado pela administração do Campus, exatamente com aquele tipo de finalidade.

Sem dar ouvidos, o militar tentou apagar a frase da aluna. Ao que parece, se referia a Zumbi dos Palmares…

Soldados armados, amados ou não (X)
…E bom lembrar que apesar de constar do texto da lei a possibilidade de qualquer cidadão dar ordem de prisão a quem estiver cometendo um crime em sua presença, isso beira o risível. Imaginem como não seria a balburdia no Planalto Central.
Privar uma pessoa da liberdade, mesmo que temporariamente, é mais do que dizer que ela está presa. Há um peso solene no gesto de um homem que é obrigado, por dever de ofício, a submeter um semelhante pela força, seja física ou moral, com ou sem resistência.
Imagino eu mesmo dando uma ordem de prisão àquele que supostamente estivesse a delinquir. E se o suposto infrator dissesse não aceitar a ordem discordando do meu comando ? Considerem ainda o fato de o candidato a ser preso possuir uma compleição física mais avantajada que a minha. Seria, um “têje preso” inócuo e com um forte risco da autoridade coatora (no caso eu) levar uns bons e merecidos tabefes…

Soldados armados, amados ou não (XI)
…Portanto, a prisão proposta não foi anunciada por um cidadão, mas por um policial a paisana, valido da sua condição, a qual usou de forma privilegiada, para atender uma indignação momentânea de caráter pessoal, convocando colegas de farda para mesma empreitada.
A um cidadão comum, da forma como ele tenta se incluir na cena, seria muito mais recomendável que, em primeiro lugar, tivesse procurado o diretor do campus e, mesmo assim, se não ficasse convencido da legalidade dos atos praticados no âmbito da universidade, prestaria queixa à polícia, em uma delegacia, registrando o famoso BO. Em defesa da sua tese, neste caso específico, poderia inclusive mover o Ministério Público, através das suas curadorias…
Soldados armados, amados ou não (XII)
…O policial que deu a voz de prisão parece não ter entendido mesmo é o sentido lato da palavra universidade e a extensão da sua intocabilidade, sendo o ato de força a última solução e não a primeira a ser usada nestes casos e, ainda assim, com todas as reservas e cautelas.
A universidade é exatamente o lugar onde o pensamento, as opiniões e as manifestações podem e devem ter espaço e fluxo garantidos. Em uma democracia se preze não há lugar para atos repressivos e intimidatórias praticados contra professores e alunos de uma instituição de ensino…

Soldados armados, amados ou não (XIII)
…O que a sociedade quer e espera é que hajam soldados armados ou desarmados, de acordo com cada ocasião, e que sejam amados pela população, sem precisar de heroísmos desnecessários, desempenhando a carreira que escolheram balizados pelo estrito cumprimento da lei, sem se afastar dela um milímetro, para assim se tornarem respeitados mais do que já são, procurando não se impor pelo medo, reconhecidos por proteger o cidadão, sem individualismos, sem vitimizações ou protagonismos patéticos.
Que ao final desse episódio tudo seja esclarecido, e que a sociedade tome conhecimento de tudo que foi apurado pelas duas instituições. Finalmente, que o incidente resulte no mínimo em uma lição, para que não se repita.
Alexandre Moca* (Cronista).

REFERENCIAS:

Imagens: http://lemad.fflch.usp.br/node/7909

http://monopoliodoze.blogspot.com.br/2012/11/torturas-utilizadas-na-ditadura-militar.html
Música: https://www.youtube.com/watch?v=A_2Gtz-zAzM

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