
A recente denúncia de pacientes com perda de visão após um mutirão de cirurgias oftalmológicas em Campina Grande (PB) expõe um problema de saúde pública que tem se repetido com frequência preocupante em diversas regiões do Brasil: os surtos de infecções graves decorrentes de falhas em procedimentos oftalmológicos.
Segundo relatos divulgados pelo G1, pelo menos 20 pessoas apresentaram sintomas como dor intensa, vermelhidão, secreção ocular e até cegueira após passarem por cirurgias de catarata. A vigilância sanitária local investiga o caso, levantando hipóteses como contaminação de insumos, falhas de esterilização ou uso inadequado de materiais durante os procedimentos.
Para o médico infectologista Dr. Klinger Soares Faíco Filho, professor adjunto da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP, apresentador do InfectoCast e fundador da Consultoria IRAS, especializada em controle de infecção hospitalar, o caso paraibano não é isolado. “Temos visto surtos similares em diferentes mutirões de catarata no país, inclusive com episódios graves de endoftalmite bacteriana. Isso revela fragilidades na aplicação de protocolos de biossegurança e uma pressão crescente por produtividade em ambientes que nem sempre têm estrutura adequada”, afirma.
Embora a cirurgia de catarata seja considerada de baixo risco, o procedimento exige manipulação delicada de estruturas internas do olho e o uso de instrumentos e soluções que precisam estar rigorosamente esterilizados. “Não é a técnica em si que falha, mas o contexto em que ela é aplicada. Muitos mutirões usam materiais de forma inadequada, reprocessam insumos descartáveis ou manipulam anestésicos sem as devidas condições de controle”, alerta o especialista.
De acordo com o Dr. Klinger, somente em 2023 foram registrados ao menos cinco surtos similares no Brasil, quase sempre com o mesmo padrão: número elevado de pacientes operados no mesmo dia, evoluindo com infecções provocadas por bactérias agressivas como Pseudomonas, Burkholderia ou Serratia. A ausência de rastreabilidade dos materiais usados e a limitada notificação de eventos adversos tornam ainda mais difícil a prevenção de novos casos.
Entre os pontos que devem ser averiguados com urgência no caso de Campina Grande, o infectologista destaca a necessidade de investigar possíveis falhas no reprocessamento de instrumentais, na esterilização de cânulas e pinças, na manipulação de soluções viscoelásticas e na preparação de antibióticos intraoculares. Além disso, reforça a importância de culturas microbiológicas do humor vítreo e da análise laboratorial de insumos utilizados.
“A microbiologia é a chave para descobrir a origem do surto. E, mais do que isso, é preciso implantar uma cultura de segurança do paciente, onde a prioridade seja o cuidado digno, não o volume de produção”, ressalta.
Como medidas preventivas, o Dr. Klinger defende maior atuação da Vigilância Sanitária em ambientes de mutirão, auditorias externas nos protocolos de antissepsia e capacitação contínua das equipes cirúrgicas e das Centrais de Material e Esterilização. “O olho é um ambiente estéril. Uma falha mínima pode levar à perda irreversível da visão. Precisamos de responsabilidade compartilhada entre gestores, equipes técnicas e autoridades regulatórias”, conclui.




