Uma guinada de 360 graus

"O problema não é com quem se chega ao poder, mas com quem se toca o poder. O que vale é o discurso propositivo e a capacidade política de implementá-lo. Coalisão é o nome, governabilidade é o resultado".

setembro 19, 2018
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Por Alexandre Henriques

Lembrei-me, nos últimos dias, da fala de um conhecido daqueles que têm uma verdadeira compulsão pela oratória. Ao término de uma capacitação feita por ele em sua área de atuação, convidado a depor sobre a experiência adquirida, segurou o microfone com planos de não mais soltar e cunhou, de entrada, a seguinte pérola: “Depois desse treinamento, dei uma guinada de 360 graus em minha vida.”

Associei a essa fala o comportamento esboçado por uma parcela dos eleitores de agora, principalmente quando se trata das preferências eleitorais e da construção das justificativas que dão lastro às tais preferências.

Sem muito esforço é fácil “ranquear” pelo menos dez frases e expressões mais usadas, repetidas por muita gente, ao se manifestar sobre as eleições que se aproximam e sobre o Brasil de uma maneira geral.

Essas manifestações atestam, de plano, o rumo troncho que pode tomar uma prosa sobre política neste momento da vida nacional, que se afigura extremado.

1 – Político é tudo igual. Nessa eleição eu não vou votar em ninguém.

Essa máxima, antiquíssima, é sacada geralmente quando o   falante nota que no ambiente não há muitos adeptos do seu candidato. Intimidado ou sem disposição para o debate se expressa com extrema soberba.

2 – Eu já votei até em Lula, mas me arrependi.

Se chegou a votar em Lula e hoje vota em Bolsonaro, é um dos que deu uma guinada de 360 graus. Vai continuar se arrependendo por anos a fio. Dependendo da idade, possivelmente a morte o alcançará bem antes da compreensão dos rudimentos da política, uma vez que os ciclos históricos muitas vezes não são coincidentes com os ciclos da cronologia humana, embora haja muitos sobreviventes do golpe de 64 e uns tantos outros, até em maior número, da era Collor. Esses, ou  são imunes à pedagogia das vivências, ou estão mal intencionados mesmo.

3 – No tempo da ditadura não era essa esculhambação.

Se for jovem, não estudou direito a história do país ou não entende nada de esculhambação. É possível ter decorado apenas algumas datas para passar de ano. Se  viveu a época da ditadura e concorda com a tortura, prisões ilegais, supressão da liberdade de imprensa e a corrupção sobre a qual não se podia falar (Transamazônica, ponte Rio Niteroi, projeto Jari, viaduto Paulo de Frontin, Dow Chemical…) passa a ser um problema de caráter, como bem enfatizou o professor e historiador Leandro Karnal.

4 – Lá nos Estados Unidos não é assim.

Muitos dos que fazem essa afirmação, às vezes de forma até boçal,  nunca foram aos Estados Unidos, quando muito têm um  conhecido lavando latrina por lá, muitas vezes clandestino e permanentemente humilhado pela mera condição de latino. Se estiver bem de vida, em Miami, Orlando ou Boca Raton, pode ser o caso de lavagem de dinheiro duvidoso, amealhado sabe-se lá como.

5 – Lula é o maior criminoso deste país e tudo de ruim que está acontecendo se deve a ele.

Ninguém sozinho pode ser o culpado de tudo. Culpado de que mesmo?

O processo explicito de chegada ao poder pode até ser diferente, mas o implícito, aquele que poucos conseguem ler quando estão ensandecidos e/ou fanatizados, é o mesmo desde a redemocratização do país, para não falar em tempos muito mais idos. Lula se tornou presidente mais pelo implícito do que pelo explícito em seu discurso. Acho que não é preciso desenhar.

6 – Vou votar em um candidato que nunca tenha exercido mandato, que seja limpo.

Neste caso funciona a parábola oncológica.

O paciente — Doutor, o senhor  vai tirar o tumor; vai curar o meu câncer.

O médico — Se eu tirar o tumor você morre!

A política, no Brasil como no resto do mundo, nunca será feita em campo cirúrgico, esterilizado imune a larvas, fungos e bactérias.

Só os bobos e mal intencionados vocalizam o discurso falso e higiênico das classes dominantes sobre moral, decência, honestidade, virtude, segurança, família, Deus, etc. O que está implícito nessas falas é, na realidade, propriedade, lucro, mão de obra escrava, estado mínimo e débil, imprensa amordaçada. Por fim, em caso de farinha pouca, meu pirão primeiro.

Não existe ninguém limpinho assim.

Aprendi, na época do catecismo, que pecamos por pensamentos, palavras, obras e omissões. No mesmo tempo me foi dito  que, após um exame de consciência bem feito e um reiterado pedido de perdão a Deus (minha culpa, máxima culpa), poderia então prescindir da confissão e comungar, direto, sem me submeter à orelha do padre.

Se vou pouco à igreja e quase nunca por razões de fé; se desde a primeira comunhão não me confesso ou comungo, tampouco teria coragem de entrar na fila para receber o corpo de Cristo, atropelando o ritual cumprido até hoje por muita gente que respeito.

Muitos dos que inflam o peito para falar de corruptos e corruptores, principalmente no meio empresarial, não resistiriam a um mínimo exame de suas próprias consciências, quanto mais ao exame contábil das suas empresas, fachadas muitas vezes criadas com o único propósito de dar suporte a falcatruas das mais variadas, que vão desde a mera sonegação até o esfriamento de documentos fiscais. Esses, na maioria das vezes, são os mais exaltados e exigentes com relação à honestidade alheia.

Alguns deles, aqui e ali vão sendo revelados pela polícia a pedido da justiça. Isso não se deve meramente à vontade da polícia ou da justiça, mas a um conjunto de circunstâncias decorrentes dos avanços tecnológicos, capazes de produzir ferramentas que transformam  quase todo o dinheiro circulante em moeda contábil e visível. Mais cedo ou mais tarde, os falsos moralistas serão alcançados e terão, como já tem sido visto, o discurso desmontado como uma torre de cartas.

7 – Não voto em quem tem ladrão e/ou golpista como apoiador.

Não vai votar este ano? Vai justificar o voto? Vai viajar para outra cidade no dia da eleição?

O problema não é com quem se chega ao poder, mas com quem se toca o poder. O que vale é o discurso propositivo e a capacidade política de implementá-lo. Coalisão é o nome, governabilidade é o resultado.

8 – O brasileiro é assim mesmo, não tem jeito!

Essa é típica de quando inquilino do Brasil chuta para o lado a nacionalidade excluindo o próprio gentílico da sua apresentação. Por certo já se imagina morando no país de Trump, pilotando carrões comprados baratos, com gasolina barata, sobre estradas maravilhosas, todo mundo armado para se defender de todo mundo, com pena de morte e outras “maravilhas” vendidas como grandes avanços de uma sociedade contraditória, que só consegue ser um pouco democrática para dentro. Quando se trata do resto do mundo…bem, o resto é resto!

9 – Não tenho bandido de estimação. Roubou, eu condeno!

A nossa decepção com os políticos não deve contaminar a crença na política. Como muita gente embasada  e estudiosa reconhece, os políticos nos trouxeram até aqui, nesse lugar indesejável. Dele só a política poderá nos tirar. Sejamos políticos na essência. Para o exercício da política, cabe até alguma astúcia.  Quanto a má-fé, não me iludo, mas quanto menos, melhor.

10 – Fecho este, que mais  parece um decálogo comentado dos dias atuais, com alguns aforismos usados frequentemente por um familiar. Ele é daqueles que sabe que o trem apita, mas não sabe de que lado ele vem. Para cada situação tem uma frase pronta, que se encaixa mais do que boca de bode. Nunca teme entrar em qualquer conversa, sobre qualquer tema, mesmo com poucas ou quase nenhuma ficha. Fala mais do que o homem da cobra e quando recebe qualquer informação nova, fora da sua alça de mira, fica mais desconfiado do que cachorro em caminhão de mudança. Nesse particular, confirma a máxima que ele mesmo professa, qual seja: ao imbecil só se ensina o que ele já sabe, para tomar o que ele tem. E assim ele vai cumprindo os seus dias, vivendo da astúcia que desenvolveu para compensar a ignorância.

Descobri, recentemente, que ele usa o artifício de esconder os óculos todas as vezes que precisa do auxílio de alguém para ler alguma coisa.

Assuntado sobre política, não se intimida e já vai debulhando a sua opinião. Coisas do tipo: O Brasil merece, e quem vai ser o presidente em janeiro é…

Em seguida arremata: E quando eu digo que o jumento morreu, pode queimar a cangalha.

O curso da história jamais se assemelhará, geometricamente,  a uma circunferência.

Ele é muito melhor representado por uma linha, uma linha do tempo. A certezas do meu parente e as de muita gente  que conheço, espantam pela falta de embasamento, reflexão e pensamento crítico. Espantam mais ainda pelo excesso de afirmações e quase nenhuma indagação, ou auto indagação.

Esses levarão o resto das suas existências guinando a 360 graus, como bússolas que perderam o norte. Não o norte magnético, mas o norte  histórico.

Alexandre Henriques é cronista, fotógrafo-multimídia

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