O Caçador de corruptos: Augusto Cury contradiz a própria obra

Opinião – Por Manuel Batista

A realidade tem um talento especial para produzir ironias. E uma delas envolve o escritor, psiquiatra e ex-presidenciável Augusto Cury, autor do romance O caçador de corruptos, que anunciou apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Cury tem todo o direito de escolher seu candidato. Mas seus leitores também têm o direito de questionar a coerência dessa escolha: os princípios defendidos nos livros não valem para as escolhas políticas?

Afinal, como alguém que escreveu sobre os perigos da corrupção, da dissimulação e da ambição pelo poder decide apoiar um político cuja trajetória é marcada por denúncias e controvérsias públicas?

Em seu romance, Cury apresenta Napoleon, um político poderoso que se considera incorruptível, mas precisa enfrentar suas próprias fraquezas. O personagem é confrontado por H, uma espécie de médico e mestre que o conduz a uma reflexão sobre os chamados “vampiros mentais”: orgulho, ira, vaidade, dissimulação e sede de poder.

A mensagem é clara: a corrupção não começa necessariamente no desvio de dinheiro. Ela também pode nascer da incapacidade de reconhecer erros e da facilidade com que justificamos nossas próprias contradições.

Pois bem. Será que essa lição vale apenas para os personagens do livro?

Flávio Bolsonaro foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, em 2020, por peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa no caso das chamadas rachadinhas.

O processo foi arquivado em 2022, após decisões judiciais que invalidaram provas da investigação. Flávio nega as irregularidades e não foi condenado nesse caso. Mas o arquivamento não transforma a denúncia em um acontecimento que nunca existiu, nem impede que o eleitor cobre explicações de quem pretende ocupar a Presidência da República.

Além disso, reportagens apontaram a presença de familiares de pessoas ligadas à milícia no antigo gabinete do senador. Mais recentemente, informações divulgadas pela imprensa também relacionaram seu nome a novas suspeitas financeiras envolvendo o Banco Master e negociações para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.

O cenário político que envolve sua candidatura também merece atenção.

Jair Bolsonaro, pai de Flávio e principal referência do bolsonarismo, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.

Flávio não responde criminalmente pelos atos do pai. Entretanto, quando uma candidatura se apresenta como continuidade de um projeto político familiar, é legítimo perguntar quais valores pretende preservar.

E aqui surge a contradição que Augusto Cury precisa explicar.

Como conciliar os ensinamentos de um livro que alerta contra a corrupção moral e a ambição pelo poder com o apoio a um projeto político cercado de controvérsias e liderado por um ex-presidente condenado por atentar contra a democracia?

Será que os “vampiros mentais” descritos por Cury só aparecem entre adversários políticos? Será que a vaidade, a dissimulação e a sede de poder deixam de ser preocupantes quando encontramos afinidade ideológica com seus protagonistas?

Talvez o personagem H tivesse muito trabalho fora das páginas do romance.

O problema não é Augusto Cury apoiar a direita. Em uma democracia, essa é uma escolha legítima. O problema é defender princípios universais na literatura e parecer flexibilizá-los quando chega a hora de escolher um candidato.

O escritor poderia explicar como avalia as denúncias que marcam a trajetória do senador e qual é sua posição diante da condenação de Jair Bolsonaro. Essa avaliação poderia representar exatamente o exercício do pensamento crítico que o próprio Cury estimula em suas obras.

Porque combater a corrupção apenas quando ela aparece entre adversários é fácil. Difícil é manter os mesmos critérios quando as suspeitas envolvem nossos aliados. A ética não pode ser um belo capítulo de romance e desaparecer na hora de escolher quem deve governar o país.

Talvez Cury tenha argumentos para justificar sua decisão. Seria interessante conhecê-los. Afinal, quem escreveu tantas páginas sobre a consciência humana certamente pode dedicar algumas linhas à própria consciência política.

Enquanto isso, fica uma sugestão bem-humorada à editora: lançar uma nova edição de O caçador de corruptos, agora com um título inspirado nessa inesperada escolha eleitoral:

“O APOIADOR DE CORRUPTOS”.

Uma provocação à postura do escritor, não uma declaração de culpa criminal contra Flávio Bolsonaro.

Porque a grande questão não é o direito de Augusto Cury apoiar quem quiser.

É saber se ele tem coragem de submeter suas próprias escolhas ao mesmo exame de consciência que exige dos personagens de seus livros.

Redação/Por Manuel Batista – Jornalista, Membro da Academia Sapeense de Letras, Arte e Cultura – ASLAC,
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