A Sociologia e os Sociólogos – interrogações entre o imaginário e a cegueira

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A Sociologia e os Sociólogos

interrogações entre o imaginário e a cegueira

 

O Brasil é um país muito interessante. Muitos problemas. Muitos desafios. Muitas características diferentes. As diferenças neste país são grandes, assim como é grande o país. Nos últimos dez anos se vê outro país. Uma participação, uma expansão das possibilidades, do

acesso ao consumo, à cultura, à ciência e às possibilidades tecnológicas.

É um país maravilhoso deste ponto de vista. Um país aberto ao futuro, o que significa dizer: risco, grandes riscos. Até o momento tem sido a velha Europa a fornecer os temas do pensamento, os temas da elaboração política, das reflexões econômicas. A velha Europa inventou o Estado, o Direito, a Sociedade. Penso que a função da velha Europa acabou.

Países como Brasil (China, México) estão sozinhos frente ao futuro. Isto significa dizer que pode evitar muitos riscos, porém com a condição de correr riscos sem saber quais são.

Raffaele De Giorgi

Programa Mãos e Mentes – 20.01.2013

 

Que é sociologia? Quem são os sociólogos? Que estuda a sociologia? Que pensam os sociólogos? Diz-se comumente que a sociologia faz parte das ciências sociais e aplicadas. Que seu objeto de estudo é a sociedade. Que os sociólogos são teóricos sociais. Que são os analistas da formação das sociedades. Entretanto, todas as interrogações e afirmações que antecedem as linhas seguintes não podem aparecer em primeiro plano, mas sim em statu secundário. Os parágrafos seguintes cumprem a função explicativa da argumentação formulada.

Seguem-se:

Quanto há de ciência social nas ciências sociais? Quanto há de cientificidade nas ciências sociais? E, finalmente, elas, as ciências sociais, existem? O leitor deve pensar que este texto é sobre psicanálise. Não. As linhas que se seguem devem ser posicionadas no espaço construtivista da linguagem como recurso humano na construção das verdades, na construção daquilo que será nominado como realidade. Mais ainda, a linguagem como mecanismo produtor da realidade. Esta última, como resultado da produção lingüística nas relações sociais, que envolve sociedade, cultura, política, religião, economia, arte, direito.

O imaginário cognitivo e lingüístico.

Com o uso da linguagem torna-se possível a construção de um espaço de estudo e investigação que se denomina: Sociologia. Vislumbram-se as perspectivas sociológicas. O mês era junho, o ano 2013, a linguagem: manifestações “brasil” na rua… O gigante acordou… Vem pra rua, vem etc. O mês era junho, o ano 2013, a linguagem: não vai ter copa. Os sociólogos vivem o imaginário de construções científicas edificadas na cegueira. Sua cognitividade não alcança o estágio de identificar que ela somente terá um sentido quando traduzida como linguagem, a linguagem que produzem, portanto, não é linguagem. Aqui o ponto capital: toda cognitividade que necessita ser transformada em linguagem, para assim ser reconhecida como ciência (verdade e realidade), apresenta uma fase essencial na sua construção, qual seja o momento da persuasão. Toda construção argumentativa apresenta 3 (três) elementos imprescindíveis: a semântica, a sintática e a pragmática. O discurso, portanto, constrói-se por estes elementos em reunião, para assim traduzir uma idéia que, obrigatoriamente, deve ser: lógica, sistemática e persuasiva.

No entanto, indaga-se: quanto há de lógica na lógica? Quanto há de linguagem na linguagem? Quanto há de lógica na linguagem? Quanto há de linguagem na lógica? Quanto há de sistematicidade na sistemática? Quanto é persuasiva a persuasão?

Por onde andam os sociólogos, os teóricos sociais que em junho de 2013 construíam linguagem, formulavam discursos e procuravam traduzir suas cognitividades? Por onde andam os pensadores das ciências sociais que afirmavam eloqüentemente que os acontecimentos de junho de 2013 haviam mudado o país. Por onde andam os cientistas sociais que afirmavam que em junho de 2014 as ruas das grandes cidades brasileiras estariam ocupadas por manifestantes indignados com o governo e o Estado?  Por onde andam os analistas sociológicos com suas afirmações que a esta época (junho de 2014) o país presenciaria milhões de manifestantes nas vias públicas com o coro de repúdio aos gastos públicos com os estádios de futebol para a copa do Mundo? Os milhões de manifestantes na ocupação das grandes avenidas das cidades sedes do mundial de futebol, por onde andam?

O mês era junho, o ano 2013, surgia na cidade de São Paulo um movimento nominado MPL – Movimento do Passe Livre, até aquele momento não se havia escrito uma linha sequer na comunicação social tupiniquim sobre sua existência. Após sua aparição avassaladora e sua presença nas vias públicas, a imprensa tupiniquim o qualificava como novo movimento de massas que surgia para renovar a participação na democracia de Zé Carioca.

O dia é 19, o mês é junho, o ano é 2014, o Movimento Passe Livre volta às ruas da capital Paulista para num ato simbólico anunciar 1 (um) ano do aumento das passagens de ônibus na cidade da garoa. A manifestação ocorre entre a Avenida Paulista e o Largo da Batata no bairro de Pinheiros, o MPL consegue aglomerar 1.300 pessoas (dados da Polícia Militar de São Paulo), para num simbolismo queimar replicas de catracas feitas de papelão. Que se viu nas ruas paulistas? Manifestantes em busca de direitos? Manifestações por reivindicações que o governo e o Estado devem atender? Não. As imagens são de depredações de concessionárias, agências bancárias etc., aproximadamente 50 mascarados (Black Blocs), deixavam rastros de vandalismo e pichações por muros e paredes.

A sociologia do imaginário e os sociólogos da cegueira. Não é mais possível realizar análises ou prognósticos sobre questões sociais, culturais e políticas como se efetua uma equação matemática. Os problemas são diversos, assim como os desafios, as complexidades não são apenas diversas e sim desconhecidas, que requerem ser organizadas. A questão é analisar o presente enquanto ainda é presente para, então, serem identificadas as possibilidades diante do futuro. O ponto capital é que o futuro sempre será o presente quando chegar e não mais futuro. A abertura ao futuro somente pode representar risco. A interpretação é de que frente ao futuro pode-se evitar uma série de riscos, no entanto, não será provável ou possível fugir de uma série de outros, que não sabemos, que não conhecemos quais são.