O Brasil e o anticapitão

Por Alexandre Henriques

É também na literatura que podemos buscar um certo alento para estes dias tão pesados, tornando o nosso ócio, para alguns compulsório em função do iminente risco, em algo um pouco mais criativo e producente. Da literatura, nos chegam os   paradigmas necessários com os quais conseguimos aviar algumas teses e antíteses sobre a realidade caótica que nos cerca.

Quem leu O capitão de longo curso (Os Velhos Marinheiros) de Jorge Amado, entenderá onde quero chegar e sai na frente pelo fato de já conhecer o personagem Vasco Moscoso de Aragão, herói farsante e divertido, posto à prova e quase desmoralizado antes de, por arte do destino, retornar ao seu posto sob os aplausos e receber as devidas honrarias.

Quem vem acompanhado o noticiário e viu o pronunciamento do presidente da república feito ontem, saberá igualmente sobre o anticapitão Jair Messias, que de coincidente com Vasco Moscoso, guarda apenas o fato de também ser um farsante.

O anticapitão Jair Messias dificilmente terá o mesmo destino do Capitão de Longo Curso, por não lhe acudir o tino de mandar amarrar o navio com todas as cordas, descer todas as âncoras e fixar a embarcação ao porto como se não tivesse dia marcado para zarpar. A prudência, neste caso, podia lhe valer críticas circunstanciais, por ser inepto e não ter a possibilidade de sozinho articular qualquer coisa mais complexa do ponto de vista cerebral, mas estaria na linha do que pensa o mundo inteiro neste momento e neste sentido. Antes a mediocridade embaçada do que a transparente idiotice.

O capitão Vasco Moscoso, gestado pela prodigiosa capacidade de Jorge Amado em criar personagens que arrebatam o leitor quase imediatamente após conhecê-los, só falta saltar de dentro do livro e sair andando, para se encarnar em pessoas próximas, conhecidas nossas, cheio de vida e alma.

Já o segundo capitão, o Jair Messias, não passa de um aborto fétido gestado no submundo da controversa política/milícia fluminense, depois de ter sido expelido como foi das forças armadas, lugar onde nunca deveria ter posto os pés, para não comprometer a instituição.

Isso pelo menos é o que já começam a entender e declarar a maioria dos militares honrados, notadamente os que um dia acreditaram que o anticapitão estivesse apto a conduzir os destinos de uma nação e disposto a fazer alguma coisa boa pelo Brasil.

Os que ainda continuam a apoiar Bolsonaro, sem qualquer reserva ou senso crítico, são os mesmos obscurantistas abjetos, capazes de  afirmar que   estamos sob égide de um castigo divino, em face da ousadia de alguns enredos carnavalescos mostrando um Cristo humanizado com arte, beleza e sem nenhuma falta de respeito, durante o carnaval na Marques de Sapucaí.

São os mesmos que não perdem a oportunidade de expor a ignorância arrogante sobre o mundo, o qual não perceberam ser indubitavelmente   maior do que o cristianismo.  Ao mesmo tempo adotam práticas pouquíssimo cristãs, distantes da solidariedade e a compaixão para com o próximo. Revelam-se piores ainda quando tentam separar pessoas por credo, cor, raça ou gênero. Chegam ao clímax quando macaqueiam o líder ou tentam justificar a atitude do anticapitão em sua ausência de sanidade.

Acercado de um bom imediato e de uma competente tripulação, o farsante Vasco Moscoso conseguiu atracar o navio em segurança no porto destino, para a ira de Chico Pacheco, o se maior inimigo e que sempre tentou lhe desmoralizar.

No navio do capitão Jair Messias, talvez seu maior inimigo seja o imediato, ou os imediatos, escolhidos a dedo por gente de Chico Pacheco.

Para Vasco Moscoso de Aragão, mesmo farsante, sobraram as manchetes laudatórias dos jornais e a cabine de capitão do navio.

Para o anticapitão, o melhor é já ir se acostumando com a lata de lixo da história, o que suponho não lhe fará grande diferença, pois foi de lá que veio.

Alexandre Henriques é cronista, fotógrafo-multimídia