Quando caírem todas as máscaras

Por Alexandre Henriques

Não gostaria de estar, neste momento, na pele de nenhum gestor público, seja na de um governador de Estado, quiçá no lugar do prefeito de uma metrópole, cargos ambicionados e disputados por tantos. Tampouco gostaria de estar na pele do administrador da mais diminuta unidade federativa. O mesmo serve com relação a estar à frente de uma grande empresa. Não almejaria, especialmente, estar no lugar do dono de um pequeno negócio, na grave hora desta travessia.

Não querer estar no lugar desses gestores, não me impede o exercício da empatia, não cria qualquer óbice no sentido de me colocar no lugar deles, com o perdão do reforço pleonástico. Digo isso porque sei que muitos, além de não conhecer o significado da palavra no seu sentido estrito, concorrem com outros que sabem o que significa, mas não têm a dimensão do que representa e nem exercitam a empatia na prática. Observo sem embaçamento ou condescendência o comportamento desse grupo de pessoas e também o de outros que, desprovidos de cargo ou patente, potencializados pela crise em curso, se revelam de forma espantosa diante da adversidade, seja no gesto proativo, lúcido e solidário, seja na truculência, na falsidade das falas e na bestialidade das intenções, a começar aqui mesmo pela minha aldeia.

Dentro do quinhão compulsório me coube neste momento, divido a gestão e o trabalho doméstico   com a minha companheira.  Temos tomado decisões pertinentes a este cruel cotidiano, que se afigura absolutamente inédito na história da humanidade. Estamos afastados de filhos, netos e amigos, e isso pesa como chumbo. É lamentável que nesse cenário de dimensão planetária, capaz de afetar profundamente a todos que habitam o que chamamos de mundo, alguns continuem achando que a terra é plana e insistam em navegar, como loucos, em direção à borda, apesar dos alertas. É como se, no íntimo, quisessem conhecer o infinito abismo.

Pior ainda são os que minimizam a gravidade da pandemia e sugerem  aos outros,  do cômodo das suas casas, que se exponham ao risco de morte para não quebrar a economia, aproveitando para prestar um desserviço social,  espalhando “fake news” pela internet, dentre outras atitudes deploráveis, como a de apoiar,  validar e reproduzir o discurso tresloucado e genocida do presidente da república. Esses, se escaparem, serão cobrados em suas comunidades e principalmente pela história. Se eu também escapar, farei questão de manter distância social deles, “ad perpetum”, mesmo quando passada a ameaça do vírus.

Nas pouquíssimas vezes que tenho saído de casa para algum afazer, com as precauções que o momento exige, me cerco de todos os cuidados. Faço isso em obediência as novas regras de sociabilidade, em respeito as pessoas próximas e levando em consideração as recomendações emanadas do plano científico.

Ao passar de carro pela frente da única agência da Caixa Econômica da minha cidade, não deixo de fazer uma associação imediata das cenas que vejo com as de um campo de concentração, daqueles dos filmes de guerra e documentários que assistimos ao longo da vida, embora a cena a que me refiro seja desprovida das cercas de arame farpado e de alojamentos, como em Auschwitz. O que reforça essa associação, na realidade, é o semblante das pessoas, são os seus olhares humilhados, desconfiados e medrosos. É como se aquele contingente humano, perigosamente comprimido, aguardasse a hora de ser empurrado, ainda com vida, para a boca de um forno crematório. Não estão ali porque escolheram, mas no intuito de receber o “auxílio emergencial” a ser pago pelo governo. Nessa hora consigo exercitar a empatia e me deprimo.

Aí caberia uma pergunta. Por que só a Caixa Econômica está apta a pagar esse benefício? Por que a rede de bancos, como um todo, não poderia dar apoio nessa tarefa, uma vez que são os bancos que ficam com a maior parte da riqueza produzida pelo povo? O que os impede?  Por que o Banco do Brasil (que até agora, ao que se sabe, ainda é do Brasil) não participa dessa verdadeira operação de guerra, ou seja, da logística de fazer chegar a cada brasileiro necessitado a quantia de R$ 600,00, com menos riscos, atropelos e exposição pública por horas sem fim?

Os que acorrem a esses ambientes de desconforto, expostos ao sol e à chuva, ficam suscetíveis a boatos e referências maledicentes. Têm sido alvos, frequentemente, das tentativas de golpes e da cobrança por lugares nas filas.  Suas fisionomias denunciam a ânsia de encontrar algum alento para suas vidas. Ninguém pode garantir que essas vidas eram boas antes da pandemia, mas se sabe que, no momento atual, foram profundamente afetadas.

E isso se deve, dentre outros flagelos, ao desemprego, que já existia antes e só aumentou. Vidas que já não eram tão boas, principalmente em função da desídia do poder público com a saúde, a educação e a segurança, em suma, por tudo de ruim  que pode ser produzido pela voracidade de uma elite gananciosa que lança suas garras sobre um solo rico e fértil, capaz de produzir o bastante para sustentar a todos de forma digna e até com sobra. Essa cena de horror e penúria não passa do resultado da mesquinharia de uma minoria que se acha eleita e até abençoada de forma divina, além de autorizada a engendrar planos cada vez mais audazes e estratégias de grande sofisticação para sugar à exaustão a riqueza gerada pelo trabalho dos outros. Uma das evidências disso é o tal mundo uberizado.

Que bicho é esse chamado economia, que tem que crescer todo ano? Que flagelo é esse chamado mercado, que se não for fartamente alimentado com suor dos que trabalham, migra para outros lugares, castigando a todos, fazendo a economia “quebrar”?  Como soa ridícula a reprodução desses discursos em bocas ignorantes a replicar de forma professoral a cantilena dos mal-intencionados e anunciadores do fim dos tempos.

Em meio a tudo isso ainda aparecem uns e outros que resolvem instalar uma discussão patética e ridícula sobre direita e esquerda, usando expressões empoeiradas, como se a história tivesse dado marcha ré e tivéssemos voltado ao final da década de 60. Isso sem contar com os que, do topo de um panteão imaginário, tentam se colocar acima dessas duas tendências, emitindo opiniões aparentemente isentas, mas na realidade entojadas soberbas, escondendo nada mais do que frustações paroquiais, sem qualquer relevância, se considerada a grandeza da hora. Hora essa onde tudo pode ser adiado e relevado em nome da preservação das nossas próprias existências.

Mascarados a vida toda, independente do adereço que hoje portam sobre a boca e o nariz, embora sem muita convicção da sua serventia, alguns gestores aproveitam para revelar toda a arrogância e desprezo pela vida dos outros, além de um imenso despreparo na resistência às pressões espúrias e circunstanciais, passando a desafiar as mais comezinhas regras impostas pela ciência.

Agindo dessa maneira demonstram não possuir sequer as qualidades mais elementares para se mover com alguma desenvoltura em um cenário como o atual. De tão titubeantes, não aceitaria acompanha-los sequer na travessia de uma faixa de pedestres. Faltam-lhes preparo para os desafios de agora e para os que se avizinham. Incluo nessa conta gestores públicos e privados, cujo retardo ou hesitação na tomada de decisões foram capazes de aumentar o número de contaminados, o que certamente redundará em um número maior de mortos.

Desconfio de todos os que só sabem se defender acusando, usando falácias. Não importa o argumento do outro, a verruga que ele possui no lobo da orelha esquerda é mais importante que a tese a ser debatida. Ofende à inteligência,  até em seu nível mediano,  agressões do tipo: “você fala, mas sua geladeira tá cheia”, “você ganha o seu salário por isso pode ficar em casa” , “70% da população vai acabar sendo contaminada mesmo” “o comércio tem que ser aberto, senão muita gente vai perder o emprego e passar fome” “você é remunerado com o dinheiro do contribuinte”. Essas idiotices, além de outras ainda mais estúpidas, agressivas e até impublicáveis, traduzem não apenas má fé e ignorância, mas também ódio e pobreza de caráter. As consequências virão para todos, proporcionalmente, cabendo a cada um o seu quinhão depois de passada a crise. A largada, para os que escaparem, será dada do mesmo ponto, na mesma hora. Uns certamente usarão a pandemia como justificativa para suas próprias inabilidades e incompetências.

Os gestores públicos, estes sim, remunerados com o dinheiro público se obrigam, constitucionalmente, em função dos seus mandatos, a oferecer soluções pensadas, lúcidas, claras e minimamente duradouras, de caráter abrangente para toda a sociedade, sem distinção. Os que meterem os pés pelas mãos, em seus arroubos autoritários, podem até ter aplauso circunstancial de uma corja de chirimbabas, as vezes até remunerados para isso e obstinados em promover suas defesas, tão estúpidas quanto as suas próprias formulações. Quando caírem todas as máscaras, terão o julgamento que merecem.

Alexandre Henriques é cronista, fotógrafo-multimídia