Réquiem para Tauá

Por Alexandre Moca

Pela quinta vez consecutiva nos últimos cinco anos a Barragem do Tauá verte suas águas, que vão se juntar às do rio Cuitegi e Araçagi, ganhando corpo para se somarem ao rio ao Mamanguape, não sem antes produzir um riquíssimo aluvião e abastecer os aquíferos subterrâneos, garantindo vida por onde passa, além de promover, em seu formato barragem, a segurança hídrica para várias cidades à jusante.

Pobre Tauá! Ao longo dos anos foi sendo esquecido enquanto importante caixa hídrica que é, capaz de saciar cidades inteiras cada vez mais sedentas.

Pobre Tauá, que assiste a destruição da vegetação de suas margens sob o olhar omisso de seus cuidadores oficiais, quais sejam: o município onde está localizado, os municípios que dependem da sua água e, por último, o Governo da Paraíba, através da AESA, que talvez só conheça a barragem do Tauá pelo mapa do Google.

Pobre Tauá, que se tornou bola da vez dos que entupiram as cidades espigões e agora tentam fugir delas como em um novo êxodo, desta vez urbano, sob a senha de viverem em contato com a natureza. Na realidade a querem para molda-la ao seu bel prazer e para transforma-la em empreendimentos imobiliários predadores, sem critério ou respeito às áreas consideradas de preservação permanente (APP), até que que as margens do belo açude sejam inundadas de garravas “pet” e embalagens “tetra pak” daquelas que levam mil anos para se decompor, além dos próprios dejetos.

Lixo de humanos, humanos feito de lixo.

Há mais de 20 anos a descarga de fundo, uma espécie de ralo instalado no porão da barragem, acionado na época das chuvas para escoar a lama decantada e dar lugar às novas águas, não mais funciona. O assoreamento completo talvez seja o que esperam com esse descaso.

A Cagepa, antes muito mais ciosa de suas responsabilidades para com o manancial que opera para a retirada da água que trata e vende aos seus consumidores, faz cara de paisagem quando o assunto é preservação da barragem.

Aves da espécie narcísica, em busca de cenários instagramáveis, pousam e posam nas belas margens e nas serras do lugar, ávidas em exibir uma plumagem que serve apenas de biombo para a hipocrisia e o desprezo que sentem pela natureza, incapazes que são de ações efetivas, por mais tímidas que sejam, no sentido de preservar esse importante manancial brejeiro.

No mundo como o de agora, onde a demanda por água é a cada dia crescente, beira o espanto a forma letárgica como se movem as autoridades governamentais no sentido da preservação, conservação e manutenção de mananciais como o do Tauá.

Melhores tempos vivemos quando podíamos contar com os cuidados dos engenheiros Uélio Joab de Melo Viana (já falecido) e de Adário da Nóbrega (aposentado), que exerceram suas atividades no escritório regional da Cagepa em Guarabira. Idealistas, preocupados com ações sanitaristas, sabiam conduzir os cuidados com a água que bebemos, não só do ponto de vista técnico, mas sobretudo com uma visão humanística.

Polêmicas com palavras molhadas de cuba libre em sábados memoráveis não foram poucas as que participamos com Uélio Joab, pois essas eram bem do seu espírito culto e inquieto. Certa vez usei a expressão “barragem sangrando” e fui atalhado de imediato por Uélio: barragem não sangra, verte o excedente de suas águas.

Se hoje fosse vivo talvez Uélio concordasse comigo sobre o Tauá. Por desídia dos órgão oficiais, o velho açude na atualidade sangra patologicamente de inverno a verão e é um paciente que, em muito breve, pode entrar em estado de choque se nada for feito.

 

Alexandre Henriques (Moca) é cronista, fotógrafo-multimídia