Utopias devem ser regadas

Por Alexandre Henriques

O filme Onirismo carrega no próprio título uma certa ambiguidade, quando     se confunde com resultado de um esforço capaz de transformar parcos recursos, em uma produção cinematográfica original. Sua realização  moveu e tornou visível a arte de um conjunto de pessoas que enchem de orgulho qualquer lugar que tenha apreço pela cultura,  tanto pelo que se doaram na consecução do objetivo principal,  como  pelo que foram capazes de fazer diante das adversidades encontradas e ultrapassadas, colocando aos olhos do público um produto cultural genuinamente paraibano, particularmente agrestino e tendo como matéria prima a mais pura prata da casa.

Na tela de exibição, o filme. Por trás dela várias outras telas, ocultas, compostas na maioria das vezes por cenas de um esforço hercúleo, seja da parte do ator e diretor Benjamin Carlos, seja por parte do elenco e da produção.­  Fazer arte com poucos recursos  é multiplicar peixes e pães, como fez literalmente o diretor do filme ao alimentar sua equipe e elenco, em um dia que eram catorze, com apenas oito quentinhas.

Merecidas homenagens aos apoiadores do projeto, desde a realização até a exibição, além de todos os outros que se doaram para que fosse possível a finalização da película (gosto desse nome, mesmo nem sendo mais). Na manifestação ufânica do empresário Veronildo Coutinho, um vaticínio, um afago, uma esperança: – cinema produzido em nossa terra se exibe é na tela grande!

Ver a mais moderna das salas de cinema de Guarabira, lotada com público bastante eclético, representativo do agrupamento humano regional, além de ter o privilégio de assistir a “avant-première” (gosto desse estrangeirismo nostálgico quando falo de cinema) foi um privilégio que entrou, sem dúvida, para cota do orgulho de ser guarabirense, mesmo não sendo. Este também é o caso de Benjamin Carlos e do diretor de fotografia Claudionor Kabeça. O último, radicado em Guarabira há um bom tempo, identificado e reconhecido pelo que empresta de ousadia, inquietação e inovação a tudo que faz, mistura de características que o torna um dos profissionais mais respeitados na sua área.

Não somos guarabirenses natos, é certo, porém aqui encontramos a ambiência necessária para viver e produzir, às vezes até oniricamente.

A tradição que possuímos de prestigiar o novo não há de esmaecer diante dos outros projetos do diretor e de sua equipe. Que mais gente se sinta motivada a produzir a partir do exemplo dado por Benjamin Carlos.

Em um país que atualmente rega as utopias com água fervente, onde a ministra da pasta compara a cultura a “…aquele pum produzido com talco espirrando do traseiro do palhaço”, é alvissareiro ver tanta gente envolvida, prestigiando e aplaudindo um curta metragem nascido e criado em terras do Morgado.

 

Alexandre Henriques é cronista, fotógrafo-multimídia