
OPINIÃO – Por Manuel Batista
De 2018 a 2026, a esquerda venceu três eleições presidenciais consecutivas em Marí. Os números deixam uma lição para os políticos locais: é preciso ouvir a população antes de tentar impor, ou omitir, suas preferências partidárias.
Os resultados das três últimas eleições presidenciais em Marí revelam uma realidade que alguns políticos locais parecem resistir em compreender: o eleitorado marienses mantém uma forte preferência pelos candidatos ligados ao campo progressista e demonstra resistência aos projetos políticos representados pelo bolsonarismo.
Não se trata de uma impressão pessoal. Os números apresentados falam por si.
Em 2018, Fernando Haddad recebeu 75,20% dos votos válidos no segundo turno, contra 24,80% de Jair Bolsonaro. Foram 9.515 votos para Haddad e 3.138 para Bolsonaro.
Em 2022, Lula alcançou 72,22%, enquanto Bolsonaro ficou com 27,78%. O petista recebeu 9.799 votos, contra 3.769 do então presidente.
Agora, em 2026, Lula voltou a vencer com ampla vantagem: 72,87% dos votos válidos, somando 11.274 votos, contra 4.197 de Flávio Bolsonaro, que obteve 27,13%.
Há um dado especialmente revelador: em três eleições consecutivas, os candidatos apoiados pelo campo progressista receberam mais de 70% dos votos válidos no segundo turno.
E, em 2026, Lula ampliou sua votação em Marí em 1.475 votos em relação ao segundo turno de 2022.
É verdade que o bolsonarismo também possui eleitores na cidade e que seus votos precisam ser respeitados. Mas não há como ignorar a dimensão da preferência majoritária demonstrada nas urnas.
Marí não está dizendo que todos pensam da mesma maneira. Está dizendo, repetidamente, qual projeto político prefere para o país.
Essa preferência merece ser analisada ao lado de outro dado importante: o impacto dos programas sociais federais na economia do município.
Conforme os valores de 2025 apresentados a partir do Portal da Transparência, Marí recebeu R$ 65.088.251,92 por meio de quatro programas:
- Bolsa Família: R$ 46,2 milhões, com 6.400 beneficiários.
- Benefício de Prestação Continuada (BPC): R$ 16,6 milhões, com 877 beneficiários.
- Pé-de-Meia: R$ 1,75 milhão, com 537 beneficiários.
- Seguro-Defeso: R$ 513 mil, com 115 beneficiários.
São recursos que ajudam a garantir alimentação, medicamentos, permanência dos jovens na escola e alguma segurança financeira para milhares de pessoas.
Mas seus efeitos não terminam nas casas dos beneficiários.
O dinheiro do Bolsa Família também movimenta o mercadinho, a feira, a farmácia, a padaria e os pequenos negócios de Marí.
Isso não significa afirmar que todos os votos em Lula foram motivados pelos benefícios, nem que os programas estejam automaticamente ameaçados por uma vitória da direita. Mas significa reconhecer que a segurança social é uma preocupação concreta e legítima do eleitor.
É fácil defender mudanças profundas nas políticas sociais quando se possui salário garantido, mandato, estrutura de gabinete e estabilidade financeira. Bem diferente é a realidade de quem depende de um benefício para colocar comida na mesa.
O eleitor tem o direito de escolher candidatos de qualquer corrente política. Mas também tem o direito de exigir compromissos claros com a manutenção e o fortalecimento dos programas que fazem diferença em sua vida.
Porque uma coisa é ter preferência partidária. Outra é ignorar, eleição após eleição, o que a maioria dos eleitores está tentando dizer.
As urnas de Marí não autorizam ninguém a falar em nome de toda a população. Mas deixam evidente que a maioria não acompanha o projeto presidencial defendido pelo bolsonarismo.
Depois de 2018, 2022 e 2026, talvez esteja na hora de alguns dirigentes entenderem que não basta trocar candidatos, slogans ou estratégias de campanha.
É preciso compreender o município em que vivem.
Marí deu seu recado três vezes. E a lição é simples: quem deseja representar o povo precisa primeiro aprender a respeitar suas escolhas, suas necessidades e seus direitos.
(Manuel Batista)






